Edjane Figueiredo Burity – CRM-6241
Pneumologista Infantil – Hospital das Clínicas da UFPE
Professora de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFPE
A tosse é um dos motivos mais frequentes de consulta em serviços de cuidados primários (emergências, ambulatórios, consultórios). É um mecanismo de defesa importante cujo objetivo principal é limpar as vias aéreas de secreções ou corpos estranhos. Surge pela irritação da chamada “zona tussígena” ou receptores da tosse, localizados na faringe, laringe, traqueia, ouvido médio, seios da face, em grandes vias aéreas/árvore traqueobrônquica, na pleura parietal, esôfago, estômago, pericárdio e diafragma.1
Quando a tosse se apresenta com frequência aumentada pode estar relacionada a doenças, como asma, rinite alérgica, sinusite, infecções virais das vias aéreas e várias outras causas menos frequentes.
Em crianças, a tosse é mais frequente que em adultos. Crianças com tosse frequente, com pouco ou longo tempo de duração, têm sua qualidade de vida prejudicada, afetando o sono, as atividades diárias e o desempenho escolar. Também prejudica a qualidade de vida de seus pais e cuidadores.2
De acordo com o tempo de duração da tosse ela é classificada em aguda, subaguda e crônica. A tosse pediátrica aguda é definida como uma tosse com duração < 2–3 semanas, dependendo da diretriz. Certas diretrizes também definem tosse subaguda ou aguda prolongada para descrever a “área cinzenta” entre a tosse aguda e a crônica, quando a tosse tem duração de 3–4 semanas.3 É considerada crônica quando está presente há mais de 4 semanas. Em adultos a tosse é considerada crônica quando iniciada há mais de 8 semanas.4
De acordo com as características da tosse ela é classificada em improdutiva ou seca — ocorre no início da inflamação, antes da formação de muco — e produtiva ou úmida — causada pelo acúmulo de secreção. Nas infecções virais das vias aéreas a tosse seca geralmente torna-se produtiva após 3–4 dias.5
A causa mais frequente de tosse aguda na criança são as infecções virais respiratórias agudas (62,4%).5,6 Globalmente, crianças sofrem de 6 a 8 episódios dessas infecções virais anualmente.5
As infecções do trato respiratório são particularmente comuns em crianças; a maioria é autolimitada e o risco de complicações é pequeno. O tratamento recomendado geralmente envolve autocuidado e tratamento dos sintomas, com orientação do pediatra.
A resistência antimicrobiana é reconhecida como uma das maiores ameaças à saúde pública global.9 Cerca de 80% das prescrições de antibióticos são realizadas nos serviços de atenção primária,10 sendo que aproximadamente 50% são desnecessárias.11
Estudos mostram que a tosse aguda se resolve em cerca de 50% das crianças em até 10 dias e em 90% em até 25 dias.13
A prevalência da tosse é maior em crianças menores do que em adolescentes e menor durante o verão. A maioria das tosses agudas é autolimitada, justificando a estratégia de observação cuidadosa e tratamento sintomático.2
Estimativas mais precisas sobre a duração dos sintomas ajudam pais e profissionais de saúde a tomar decisões mais adequadas sobre busca por atendimento e uso de medicamentos.13
COMENTÁRIO: A maioria das tosses agudas são provocadas por infecção respiratória viral ou alergia respiratória.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. Koucký V. Differential diagnosis of chronic cough. PEDIATRIE PROPRAXI/Pediatr.praxi. 2024;25(1):12-18. https://doi.org/10.36290/ped.2024.002.
2. Bergmann M, Haasenritter J, Beidatsch D, Schwarm S, Hörner K, Bösner S, et al. Children with cough in family practice and primary care: a systematic review of prevalence, etiology, and prognosis. BMC Pediatrics (2021) 21:260.
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4. Kunč P, Fábry J, Péčová R, Ferenc P, Strachan T, Matiščáková M. Multidisciplinary approach to the diagnosis of chronic childhood cough in pediatric practice. Pediatr. praxi. 2023;24(1):24-28.
5. Kazan State Medical Academy. Differential diagnosis of cough in paediatric practice: The role of combination therapy. МЕДИЦИНСКИЙ СОВЕТ 2025;19(1):68–73.
6. van Vugt SF, Verheij TJ, de Jong PA, et al. Diagnosing pneumonia in patients with acute cough: clinical judgment compared to chest radiography. Eur Respir J. 2013;42(4):1076-1082.
7. Expert Panel Report 3. Guidelines for the Diagnosis and Management of Asthma. National Asthma Education and Prevention Program, Third Expert Panel on the Diagnosis and Management of Asthma. National Heart, Lung, and Blood Institute (US); 2007.
8. Verheij TJ, Cianci D, van der Velden AW, Butler CC, Bongard E, Coenen S, et al. Clinical presentation, microbiological aetiology and disease course in patients with flu-like illness: a post hoc analysis of randomised controlled trial data. Br J Gen Pract 2022. DOI: https://doi.org/10.3399/BJGP.2021.0344.
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10. UK Health Security Agency (UKHSA). English surveillance programme for antimicrobial utilisation and resistance (ESPAUR): Report 2021 to 2022. London: UKHSA, 2022.
11. Fleming-Dutra KE, Hersh AL, Shapiro DJ, et al. Prevalence of inappropriate antibiotic prescriptions among US ambulatory care visits, 2010–2011. JAMA 2016;315(17):1864–1873.
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14. Wensaas KA, Heron J, Redmond N, Turnbull S, Christensen H, Thornton H, et al. Post-consultation illness trajectories in children with acute cough and respiratory tract infection: prospective cohort study. Family Practice. 2018;35(6):676–683.
15. Jindal SK, Vora A, Malve H, Panchal R. Prevalence and Clinical Characteristics of Acute Cough in Indian Pediatric Population: Insights from Real-World Study. J Pharm Bioallied Sci. 2025;17(Suppl 3):S2691–S2697. doi:10.4103/jpbs.jpbs_1068_25.
16. Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Imunizações. Nota Técnica – Coqueluche – Atualização nº 190, 13 de fevereiro de 2025.