Edjane Figueiredo Burity – CRM-6241
Pneumologista Infantil – Hospital das Clínicas da UFPE
Professora de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFPE
A tosse é um mecanismo de defesa das vias aéreas com a função de eliminar secreções e proteger os pulmões contra a inalação de substâncias irritantes presentes no ar.1 Ter este mecanismo de defesa funcionando adequadamente é um dos pré-requisitos básicos para a limpeza eficaz das vias aéreas e assim reduzir o risco de infecções respiratórias. Nos casos em que este reflexo esteja comprometido, ou seja, que a pessoa não consiga tossir para eliminar alguma secreção, poderá haver o acúmulo de secreções nos brônquios seguido de infecção respiratória. Portanto, a supressão da tosse com antitussígenos não é um tratamento racional; o tratamento deve focar na resolução da causa e garantir que a tosse seja eficaz garantindo a proteção e limpeza das vias aéreas.2
A tosse é o sintoma mais comum com o qual os pediatras da atenção primária (emergências, ambulatórios, consultórios) entram em contato em todas as faixas etárias da população infantil. Acompanha quase todas as doenças do aparelho respiratório, mas também pode ser um sinal de alerta para uma doença extrapulmonar grave. De acordo com os dados epidemiológicos disponíveis, a tosse crônica afeta entre 5% e 10% das crianças.3
Especialmente crianças em idade pré-escolar (2 a < 6 anos/idade), após entrarem na coletividade (escolas e creches) ficam doentes com mais frequência devido ao contato com outras crianças com infecção viral. Para crianças de 1 a 5 anos, até 8 episódios de infecções virais não complicadas por ano são normais, especialmente no outono e inverno. Muitas vezes há um acúmulo dessas doenças que pode simular uma tosse crônica persistente. Isso ocorre mais em crianças com alergia respiratória, que aparentam estar sempre gripadas.3
A tosse é considerada subaguda, em crianças, quando foi iniciada há 3–4 semanas. Ao contrário dos adultos, a tosse em crianças é considerada crônica se iniciada há mais de 4 semanas.4 Isso ocorre porque, em crianças, a maioria das infecções respiratórias agudas se resolve geralmente em um período de 2 a 4 semanas. Em adultos a tosse é considerada crônica quando iniciada há mais de 8 semanas. As tosses subaguda e crônica, em crianças, estão associadas a prejuízo na qualidade de vida da criança e dos pais ou cuidadores, faltas escolares, consultas médicas frequentes e uso inadequado de antibióticos.5-7
As causas mais frequentes de tosse subaguda são infecções respiratórias recorrentes, asma (até 50,4% dos pacientes com tosse há mais de 3 semanas) e coqueluche. Estas mesmas causas podem ser diagnosticadas após 4 semanas de duração configurando já uma tosse crônica.8
Estudo realizado com crianças com tosse encontrou que na tosse subaguda e crônica, a duração total da tosse variou de 24 a 192 dias.1,9
Em casos de tosse subaguda/prolongada a prevalência de asma e coqueluche é bem maior. No entanto, a coqueluche parece ser subdiagnosticada, o que é preocupante, pois o uso de antibiótico específico pode reduzir a disseminação da doença se administrado precocemente.9 Em crianças maiores e adolescentes as características clássicas da tosse coqueluchoide contribuem minimamente para o diagnóstico. Nestas faixas etárias a coqueluche pode se apresentar como uma tosse inespecífica.3
Doenças graves como pneumonia e tuberculose não são frequentes causas de tosse.9 A tosse subaguda pós-infecciosa pode ser causada por hiper-reatividade brônquica após infecções virais ou por infecção por bactérias atípicas: Mycoplasma pneumoniae, Clamídea pneumoniae e Legionella pneumophila.10
O procedimento de investigação da tosse baseia-se principalmente na avaliação detalhada da história clínica e exame físico, nos quais se deve buscar sinais que apontem para uma causa específica de tosse. A tosse subaguda é um problema diagnóstico complexo que exige uma análise cuidadosa do histórico clínico e fatores de risco.2,9 O médico deve focar no tratamento da doença de base, recorrendo à terapia sintomática apenas quando a tosse prejudica o bem-estar da criança e não cumpre sua função protetora.11
Em crianças, a sensibilidade à tosse é influenciada pelo calibre das vias aéreas e pela idade.12 Em relação à tosse crônica, em crianças menores de 5 anos as causas mais comuns são tosse pós-infecciosa, bronquite bacteriana protraída e asma. Crianças maiores de 5 anos apresentam tosse crônica mais frequentemente devido ao início de doenças alérgicas, especialmente asma e síndrome da tosse das vias aéreas superiores.3,5,13
Outras causas de tosse crônica menos frequentes são doença do refluxo gastroesofágico, anomalias congênitas das vias aéreas, aspiração de corpo estranho, tosse psicogênica, sinusite crônica e bronquiectasias.5,10,14
Clinicamente, a tosse é uma importante característica da rinossinusite crônica na população pediátrica.17 Pacientes com hiperresponsividade laríngea exibem movimentos paradoxais das cordas vocais em resposta a estímulos nocivos, podendo simular uma crise de asma.18-20
A asma é uma das causas mais frequentes de tosse crônica na criança. A exposição a fatores ambientais como fumaça de cigarro e alérgenos domésticos deve ser investigada como possível causa da tosse.1
A bronquite bacteriana protraída é outra causa de tosse subaguda e crônica. Caracteriza-se por tosse produtiva iniciada há pelo menos 4 semanas e sem características específicas de outra doença.7,22
Estudo realizado com 903 crianças e adolescentes diagnosticou bronquite bacteriana protraída em 9,5% dos pacientes avaliados, sendo mais frequente em crianças pequenas que frequentam creches.24
Em crianças com tosse crônica também podem ser encontradas anormalidades otorrinolaringológicas como fendas laríngeas, hipertrofia adenoideana e disfunção das cordas vocais.25,26
A esofagite eosinofílica e a doença do refluxo gastroesofágico também podem estar associadas à tosse crônica em crianças com sintomas respiratórios e atraso no crescimento.27
Muitas das tosses em crianças podem ser inicialmente tratadas por um pediatra. No entanto, se a tosse não se resolver ou houver suspeita de doença subjacente, recomenda-se encaminhamento para avaliação especializada.1
COMENTÁRIO: Apesar da grande variedade de possibilidades causadoras de tosse crônica, a grande maioria é causada por alergia, tosse pós-infecciosa, bronquite bacteriana protraída, síndrome da tosse das vias aéreas superiores, coqueluche e infecção por Mycoplasma.
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